Dívida de R$ 155 milhões, guerra interna e 'carteiradas' na Arena: por que o Náutico 'pede' socorro na Série B

Em carta, o presidente do Náutico, Ivan Brondi, comunicou à Liga do Nordeste nesta segunda-feira que o clube estava oficializando a sua desfiliação.

Poucos minutos depois, outro documento chegou à cúpula da entidade: dessa vez, assinado pelo mandatário do Conselho Deliberativo alvirrubro, Gustavo Ventura, esclarecia que qualquer decisão nessa linha teria de ser submetida primeiro ao órgão e depois aprovada.
É apenas uma mostra do caos em que a equipe se transformou. Ela entra em campo logo mais, contra o ABC, no estádio Frasqueirão, em Natal, às 21h30 (de Brasília), com o desafio de evitar mais um recorde negativo: se não bater os donos da casa, terá a pior arrancada da história da Série B nos pontos corridos. Com um aproveitamento de 6,1% e apenas dois pontos somados em 11 jogos, está junto com o Vila Nova-GO, que teve o mesmo desempenho em 2014, mas ganhou na 12ª rodada.
A situação do Náutico é desesperadora.
Na lanterna e dez pontos atrás do Luverdense, que ocupa o 19º lugar, não surpreende que o rebaixamento para a terceira divisão seja tratado abertamente.
"Precisamos de um fato novo ainda neste ano para evitar a queda para a Série C", afirma o empresário Edno Melo, que será aclamado novo presidente do Timbu nas eleições marcadas para o próximo dia 16 de julho, ao ESPN.com.br.
Ele já trabalha na transição ocupando o cargo de vice-presidente administrativo-financeiro.
Esse "fato novo" poderia ser a volta imediata aos Aflitos. Não será. Ela está prevista para o primeiro semestre de 2018 e seu processo está em andamento, com a compra de seu novo gramado por R$ 69 mil. Existe apenas uma convicção: não dá para continuar na Arena Pernambuco, que fica no município vizinho de São Lourenço da Mata, tem acesso difícil e nunca enche.
O time comandado por Beto Campos tem média de ocupação de apenas 5% e 2.571 mil de público.
Não é por acaso que seus cofres estão vazios: em somente uma de suas partidas em casa - o boletim financeiro da última rodada, contra o CRB, ainda não foi disponibilizado no site da CBF -, o público pagante foi maior do que o não pagante. Em seu compromisso anterior diante de sua torcida, frente o Goiás, foram 1.068 mil que não pagaram para entrar - 868 com cortesia, 187 em camarote e 13 crianças - contra 693 que puseram a mão no bolso.
Assim, fica praticamente inviável reduzir o seu passivo.
Ele era de R$ 62 milhões em 2011 e chegou a R$ 155 milhões em 2016.
Em crise financeira, o Náutico pagou a folha salarial de abril na semana passada, mas deixou de fora os atletas que treinam em separado, irritando parte de seu elenco, que protagonizou greve recente. Segundo apurado pelo ESPN.com.br, entre representantes de jogadores, o clube é mal visto: um dos motivos citados é a sua suposta estratégia de pagar os vencimentos somente quando eles estão próximos de chegar ao terceiro mês em atraso, evitando, assim, que os profissionais tentem a rescisão na Justiça.
A diretoria alvirrubra não confirma a prática.
Sem dinheiro em caixa, o time teve de abrir mão do técnico Milton Cruz, ex-auxiliar do São Paulo, que vinha de início promissor.
Mais do que isso, pegou adiantamento de R$ 1 milhão com o Esporte Interativo, detentor dos direitos de transmissão da Copa do Nordeste, para saldar contas.
Não deverá ser suficiente. "O problema do Náutico foi a falta de planejamento na formação de elenco. Não conseguia pagar, mais de R$ 1 milhão mensais. Agora, estamos sendo obrigados a reformular tudo com o campeonato em andamento, trazendo jogadores adequados à nossa realidade", analisa Edno Melo.
"A curto prazo, (como fato novo) teremos de ver venda de jogador, entrada de novos patrocinadores, redução de despesa", prossegue. "Erick é um dos possíveis nomes, mas existem outros", completa.
Em seis meses, o Náutico foi eliminado na primeira fase da Copa do Brasil e do Nordestão, ficou em quarto lugar no Pernambucano e passa vergonha na Série B.
O pesadelo alvirrubro não tem fim: essa é a sua 12ª temporada consecutiva sem títulos.
A última alegria que o time deu ao seu torcedor foi ainda em 2012, ao fazer boa campanha na Série A, garantindo a 12ª colocação, com Kieza balançando as redes 13 vezes e Araújo decretando o rebaixamento do rival Sport nos Aflitos. Desde então, agoniza em um martírio sem fim.
Não resta dúvida de que o futuro do Náutico passa pelos Aflitos e seus mais de R$ 3 milhões necessários para reforma.

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